Quarta-feira, Abril 20, 2011

Cotidiano

Ouvi dizer - talvez tenha tido isso na faculdade, mas sinceramente nao me lembro - que a memoria do ser humano nao registra atividades rotineiras e por isso mesmo as vezes nao nos lembramos de coisas que fizemos ha' poucos minutos ou mesmo do que comemos no almoco. Essas coisas nao sao importantes pro cerebro, que perderia muita energia concentrando-se nelas o tempo todo.

Pensando nisso, nao e' de se estranhar que minha memoria, desde quando comecei a trabalhar - entrei a vida adulta - simplesmente nao funciona. A rotina a matou. Ter um trabalho alienado e fazer coisas que realmente nao me interessam nao sao coisas que significam e, portanto, nao ficam. A memoria segue pois uma outra regra: so' fica o que significa.

Bem, so' estou escrevendo essas coisas pra dar um reclamadinha, como sempre. A cancao do Chico "Cotidiano", entretanto, expressa o mesmo de forma mais genial. Alias, a frase de que mais gosto e': "Todo dia eu so' penso em poder parar, meio-dia eu so' penso em dizer nao, depois penso na vida pra levar e me calo com a boca de feijao".

Bem, meu feijao esta' pronto, tenho que ir.


 Cotidiano
Chico Buarque
"Todo dia ela faz tudo sempre igual:
Me sacode às seis horas da manhã,
Me sorri um sorriso pontual
E me beija com a boca de hortelã.
Todo dia ela diz que é pr'eu me cuidar
E essas coisas que diz toda mulher.
Diz que está me esperando pr'o jantar
E me beija com a boca de café.
Todo dia eu só penso em poder parar;
Meio-dia eu só penso em dizer não,
Depois penso na vida pra levar
E me calo com a boca de feijão.
Seis da tarde, como era de se esperar,
Ela pega e me espera no portão
Diz que está muito louca pra beijar
E me beija com a boca de paixão.
Toda noite ela diz pr'eu não me afastar;
Meia-noite ela jura eterno amor
E me aperta pr'eu quase sufocar
E me morde com a boca de pavor.
Todo dia ela faz tudo sempre igual:
Me sacode às seis horas da manhã,
Me sorri um sorriso pontual
E me beija com a boca de hortelã.
Todo dia ela diz que é pr'eu me cuidar
E essas coisas que diz toda mulher.
Diz que está me esperando pr'o jantar
E me beija com a boca de café.
Todo dia eu só penso em poder parar;
Meio-dia eu só penso em dizer não,
Depois penso na vida pra levar
E me calo com a boca de feijão.
Seis da tarde, como era de se esperar,
Ela pega e me espera no portão
Diz que está muito louca pra beijar
E me beija com a boca de paixão.
Toda noite ela diz pr'eu não me afastar;
Meia-noite ela jura eterno amor
E me aperta pr'eu quase sufocar
E me morde com a boca de pavor.
Todo dia ela faz tudo sempre igual:
Me sacode às seis horas da manhã,
Me sorri um sorriso pontual
E me beija com a boca de hortelã."


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