Fernando Pessoa
Estava procurando algo inteligente, arrebatador de almas, algo que, como disse no post abaixo, me trouxesse de volta `a vida. Simples e ao mesmo tempo ininteligivel, dialetico, talvez. Encontrei o excerto abaixo reproduzido, escrito pelo heteronimo de Fernando Pessoa, Bernardo Soares, em "O livro do desassossego". Boa leitura!
"Considero a vida uma estalagem onde tenho que me demorar até que chegue a diligência do
abismo. Não sei onde me levará, porque não sei nada. Poderia considerar esta estalagem uma
prisão, porque estou compelido a aguardar nela; poderia considerá-la um lugar de sociáveis,
porque aqui me encontro com outros. Não sou, porém, nem impaciente nem comum. Deixo ao
que são os que se fecham no quarto, deitados moles na cama onde esperam sem sono; deixo ao
que fazem os que conversam nas salas, de onde as músicas e as vozes chegam cómodas até
mim. Sento-me à porta e embebo meus olhos e ouvidos nas cores e nos sons da paisagem, e
canto lento, para mim só, vagos cantos que componho enquanto espero.
Para todos nós descerá a noite e chegará a diligência. Gozo a brisa que me dão e a alma que
me deram para gozá-la, e não interrogo mais nem procuro. Se o que deixar escrito no livro
dos viajantes puder, relido um dia por outros, entretê-los também na passagem, será bem. Se
não o lerem, nem se entretiverem, será bem também."

1 Comments:
FP é FP. Em qual sentido vc interpreta a "diligência do abismo"? De inexorabilidade ou simplesmente da presteza em sua aplicação? Só pra saber...
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